Dados do Censo Escolar do Ministério da
Educação e Cultura (MEC/INEP) destacaram o aumento no número de matrículas de
alunos com necessidades educacionais especiais de ensino em 640% nas escolas
regulares contra 28% nas escolas e classes especiais, entre os anos de 1998 e
2006. Além disso, o Censo apontou o crescimento de 146% de matriculas de alunos
especiais em escolas públicas regulares e 64% em escolas privadas regulares. Se
faz necessário estudar e pesquisar sobre os alunos com necessidades especiais
para que possamos buscar ao máximo suas potencialidades.
Em
2008 foi realizada uma pesquisa sobre a escolarização inclusiva de alunos com
autismo na Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte, feita por Camila Gomes e
Enicéia Mendes. Segue abaixo algumas informações a respeito da pesquisa.
Objetivo
O objetivo geral dessa pesquisa foi
caracterizar o perfil dos alunos com autismo matriculados em escolas regulares
do município de Belo Horizonte no ano de 2008, assim como caracterizar como é a
escolarização desses alunos em classes comuns de escolas regulares, a partir da
perspectiva de seus professores.
Amostra
Dos 33 alunos com autismo investigados, 91%
eram do sexo masculino. Entretanto, nove alunos do total apresentaram pontuação
na CARS correspondente a desenvolvimento
normal, sugerindo que essas crianças podem não apresentar sintomas
consistentes com a caracterização de autismo.
Prosseguindo a análise dos dados optou-se por
considerar nesse estudo apenas os alunos que apresentaram sintomas de autismo
leve/moderado e autismo grave pela CARS, independente do diagnóstico prévio
identificado nas escolas. A amostra final ficou composta por cinco alunos da
Educação Infantil e 18 do ensino fundamental, dos quais 14 estavam no 1º ciclo
e quatro no 2º e 3º ciclos.
Suporte
Escolar ao aluno
Quanto ao suporte à escolarização dos alunos,
foram identificados três tipos de apoios: (1) auxiliar de vida escolar
(estagiário que acompanhava a criança dentro da escola no período escolar), (2)
acompanhamento de profissionais especializados extraescolar e (3) escolarização
especializada, ofertada no contra turno à frequência da classe comum da escola
regular.
Possuíam
um auxiliar de vida escolar.
40%
dos alunos da educação infantil,
90%
dos alunos do 1º ciclo e
40%
dos alunos do 2º e 3º ciclos
Porém
Os
auxiliares de vida escolar, em todos os casos eram estudantes que estavam
cursando o ensino médio (76,5%) ou ensino superior (23,5%)
Suporte
aos professores
Sobre
o suporte aos professores, 54% afirmaram recebê-lo do município (Núcleo de
Inclusão ou Equipe de Inclusão da Regional) e nenhum outro tipo de suporte foi
citado pelos professores.
Em
relação à frequência desse suporte, a maioria dos professores afirmou tratar-se
de um apoio ocasional
Freqüência
dos alunos
Em
relação à frequência dos alunos, os professores indicaram que a maioria deles
apresentava poucas faltas.
Sobre
a relação entre a idade dos alunos e a série/ciclo em que estavam matriculados
Educação
infantil 100% dos casos
1º,
2º e 3º ciclos entre 50% e 60%
Participação
dos alunos
Em
relação à participação dos alunos com autismo nas atividades escolares,
observa-se variação nas diferentes etapas. No que se refere à permanência em
sala de aula durante todo o tempo da jornada escolar:
80%
dos alunos da educação infantil,
40%
do 1º ciclo e
60%
do 2ºe 3º ciclos
O
restante dos alunos não permanecia em sala de aula ou permanecia “às vezes”.
A
participação dos alunos com autismo nas tarefas de sua turma, no geral, é
considerada baixa.
Sobre
a maneira como os professores avaliavam seus alunos com autismo
A avaliação era predominantemente idêntica à
dos colegas na educação infantil, porém o quadro
se inverte no 1º ciclo, tornando-se
predominantemente diferenciada.
Já no 2º e 3ºciclos, observa-se uma porcentagem
igualitária na avaliação: 50% dos professores relataram avaliar seus alunos com
autismo de maneira diferenciada enquanto os outros 50% afirmaram avaliar de
forma igual.
Em
relação à aprendizagem de habilidades pedagógicas básicas
Percebe-se
que a porcentagem de alunos que sabiam ler, escrever, fazer contas e que
acompanhavam os conteúdos pedagógicos:
abaixo
de 10% no 1º ciclo
abaixo
de 60% no 2º e 3º ciclos
Conclusões
De maneira mais geral observa-se que as
estratégias utilizadas pela prefeitura parecem favorecer a frequência dos
alunos com autismo nas escolas regulares, o que pode ser considerado um avanço.
Porém os dados sugerem pouca participação desses alunos nas atividades da
escola, baixa interação com os colegas e pouca aprendizagem de conteúdos
pedagógicos. O principal apoio oferecido pelo sistema municipal é a presença
dos estagiários funcionando como auxiliares de vida escolar, mas pelo visto, os
benefícios maiores deste tipo de suporte se voltam mais para os professores e
para o sistema educacional do que para os alunos com autismo, pois com a oferta
de suporte de baixo custo, em comparação ao quanto seria se houvesse a
contratação de profissionais especializados, as demandas que surgem com a
presença do aluno com autismo na sala de aula podem estar amenizadas com a
contratação de leigos.
O apoio de auxiliares leigos na escola para
crianças com necessidades educacionais especiais pode ser um recurso valioso,
se o plano educacional individualizado do aluno pressupõe que isto seja
necessário. Entretanto, não se trata de um recurso que deve ser utilizado
indiscriminadamente, e muito menos para substituir a oferta de apoios de
profissionais especializados e qualificados para responder as necessidades
diferenciadas destas crianças, como parece ser o caso. Crianças com
necessidades educacionais especiais precisam ter seu direito a educação
assegurado, e de nada adianta assegurar a presença delas na escola se o direito
à educação continuar sendo mascarado pelo assistencialismo e pela tutela.
Assim, no momento em que este sistema
educacional estudado já conseguiu assegurar o acesso e a permanência dos alunos
com autismo nas classes comuns de escolas regulares, o próximo passo deveria
ser o de oferecer às escolas condições para que possam desenvolver ao máximo o
potencial desses alunos.
Quer ver a pesquisa na íntegra? Consulte:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382010000300005
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