segunda-feira, 30 de abril de 2012

A escolarização inclusiva de alunos com autismo na Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte


Dados do Censo Escolar do Ministério da Educação e Cultura (MEC/INEP) destacaram o aumento no número de matrículas de alunos com necessidades educacionais especiais de ensino em 640% nas escolas regulares contra 28% nas escolas e classes especiais, entre os anos de 1998 e 2006. Além disso, o Censo apontou o crescimento de 146% de matriculas de alunos especiais em escolas públicas regulares e 64% em escolas privadas regulares. Se faz necessário estudar e pesquisar sobre os alunos com necessidades especiais para que possamos buscar ao máximo suas potencialidades.

Em 2008 foi realizada uma pesquisa sobre a escolarização inclusiva de alunos com autismo na Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte, feita por Camila Gomes e Enicéia Mendes. Segue abaixo algumas informações a respeito da pesquisa.

Objetivo

O objetivo geral dessa pesquisa foi caracterizar o perfil dos alunos com autismo matriculados em escolas regulares do município de Belo Horizonte no ano de 2008, assim como caracterizar como é a escolarização desses alunos em classes comuns de escolas regulares, a partir da perspectiva de seus professores.

Amostra

Dos 33 alunos com autismo investigados, 91% eram do sexo masculino. Entretanto, nove alunos do total apresentaram pontuação na CARS correspondente a desenvolvimento normal, sugerindo que essas crianças podem não apresentar sintomas consistentes com a caracterização de autismo.

Prosseguindo a análise dos dados optou-se por considerar nesse estudo apenas os alunos que apresentaram sintomas de autismo leve/moderado e autismo grave pela CARS, independente do diagnóstico prévio identificado nas escolas. A amostra final ficou composta por cinco alunos da Educação Infantil e 18 do ensino fundamental, dos quais 14 estavam no 1º ciclo e quatro no 2º e 3º ciclos.

Suporte Escolar ao aluno

Quanto ao suporte à escolarização dos alunos, foram identificados três tipos de apoios: (1) auxiliar de vida escolar (estagiário que acompanhava a criança dentro da escola no período escolar), (2) acompanhamento de profissionais especializados extraescolar e (3) escolarização especializada, ofertada no contra turno à frequência da classe comum da escola regular.

Possuíam um auxiliar de vida escolar.

40% dos alunos da educação infantil,
90% dos alunos do 1º ciclo e
40% dos alunos do 2º e 3º ciclos

Porém

Os auxiliares de vida escolar, em todos os casos eram estudantes que estavam cursando o ensino médio (76,5%) ou ensino superior (23,5%)

Suporte aos professores

Sobre o suporte aos professores, 54% afirmaram recebê-lo do município (Núcleo de Inclusão ou Equipe de Inclusão da Regional) e nenhum outro tipo de suporte foi citado pelos professores.

Em relação à frequência desse suporte, a maioria dos professores afirmou tratar-se de um apoio ocasional

Freqüência dos alunos

Em relação à frequência dos alunos, os professores indicaram que a maioria deles apresentava poucas faltas.

Sobre a relação entre a idade dos alunos e a série/ciclo em que estavam matriculados

Educação infantil 100% dos casos
1º, 2º e 3º ciclos entre 50% e 60%

Participação dos alunos

Em relação à participação dos alunos com autismo nas atividades escolares, observa-se variação nas diferentes etapas. No que se refere à permanência em sala de aula durante todo o tempo da jornada escolar:

80% dos alunos da educação infantil,
40% do 1º ciclo e
60% do 2ºe 3º ciclos

O restante dos alunos não permanecia em sala de aula ou permanecia “às vezes”.
A participação dos alunos com autismo nas tarefas de sua turma, no geral, é considerada baixa.

Sobre a maneira como os professores avaliavam seus alunos com autismo

A avaliação era predominantemente idêntica à dos colegas na educação infantil, porém o quadro
se inverte no 1º ciclo, tornando-se predominantemente diferenciada.

Já no 2º e 3ºciclos, observa-se uma porcentagem igualitária na avaliação: 50% dos professores relataram avaliar seus alunos com autismo de maneira diferenciada enquanto os outros 50% afirmaram avaliar de forma igual.

Em relação à aprendizagem de habilidades pedagógicas básicas

Percebe-se que a porcentagem de alunos que sabiam ler, escrever, fazer contas e que acompanhavam os conteúdos pedagógicos:

abaixo de 10% no 1º ciclo
abaixo de 60% no 2º e 3º ciclos

Conclusões

De maneira mais geral observa-se que as estratégias utilizadas pela prefeitura parecem favorecer a frequência dos alunos com autismo nas escolas regulares, o que pode ser considerado um avanço. Porém os dados sugerem pouca participação desses alunos nas atividades da escola, baixa interação com os colegas e pouca aprendizagem de conteúdos pedagógicos. O principal apoio oferecido pelo sistema municipal é a presença dos estagiários funcionando como auxiliares de vida escolar, mas pelo visto, os benefícios maiores deste tipo de suporte se voltam mais para os professores e para o sistema educacional do que para os alunos com autismo, pois com a oferta de suporte de baixo custo, em comparação ao quanto seria se houvesse a contratação de profissionais especializados, as demandas que surgem com a presença do aluno com autismo na sala de aula podem estar amenizadas com a contratação de leigos.

O apoio de auxiliares leigos na escola para crianças com necessidades educacionais especiais pode ser um recurso valioso, se o plano educacional individualizado do aluno pressupõe que isto seja necessário. Entretanto, não se trata de um recurso que deve ser utilizado indiscriminadamente, e muito menos para substituir a oferta de apoios de profissionais especializados e qualificados para responder as necessidades diferenciadas destas crianças, como parece ser o caso. Crianças com necessidades educacionais especiais precisam ter seu direito a educação assegurado, e de nada adianta assegurar a presença delas na escola se o direito à educação continuar sendo mascarado pelo assistencialismo e pela tutela.

Assim, no momento em que este sistema educacional estudado já conseguiu assegurar o acesso e a permanência dos alunos com autismo nas classes comuns de escolas regulares, o próximo passo deveria ser o de oferecer às escolas condições para que possam desenvolver ao máximo o potencial desses alunos.

Quer ver a pesquisa na íntegra? Consulte:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382010000300005

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